A INTERNET E O SINTOMA CONTEMPORÂNEO
Freud, em 1930, no seu famoso trabalho “O mal-estar na civilização,” denunciava a difícil relação do homem consigo mesmo e com o seu semelhante, evocando aí, o que em 1960, Jacques Lacan, psicanalista francês, chamou “os impasses do sujeito com o real”.
O real é o que põe questões para todo sujeito, é aquilo com o qual o sujeito não consegue harmonizar-se. O real tem como representantes máximos na cultura, o sexo e a morte. O real é um limite. Diante do real, há sempre uma impossibilidade a ultrapassar.
No Mal-estar na civilização, Freud convoca os psicanalistas a se ocuparem do mal-estar do homem no mundo civilizado e a se interessarem pela subjetividade contemporânea. E, em 1953, Lacan, fiel seguidor de Freud, vai nos dizer que a psicanálise tem um papel a desempenhar na direção da subjetividade moderna, papel esse que somente poderá ser garantido, ajustando a psicanálise às novas invenções da ciência.
Sabemos da grande atração que o “novo”, a novidade exerce sobre o homem. É grande o interesse do homem pelos novos objetos da ciência, pelas rápidas, interessantes e atraentes invenções da ciência, pelos objetos modernos que o discurso capitalista não pára de inventar. Na série dos novos objetos da ciência, vamos refletir sobre o uso do computador, refletir sobre a relação do sujeito com esse objeto “top de linha” que proporcionou ao homem comunicar-se separado do vivo da palavra e nos permitiu acesso a um mundo virtual via Internet. A Internet é útil, engenhosa e eficaz para o sujeito engajado na modernidade, para todo sujeito identificado com o mundo contemporâneo, contudo, essa eficácia depende do modo e da finalidade como cada um dela faz uso.
A questão do sujeito com a Internet, que interessa aos psicanalistas, refere-se ao “valor” que cada um retira do “uso” que faz da máquina. Que valor tem para o sujeito essa máquina moderna que chamamos computador? Bem, a psicanálise é uma “práxis” interessada no mal-estar do sujeito no mundo, já dissemos. Dizendo de outra maneira: a psicanálise está interessada na “causa” da insatisfação e da angústia do sujeito com o mundo dos objetos. O interesse da psicanálise é orientar o sujeito, pela via do saber inconsciente, até os impasses com o real, conduzir o sujeito a construir uma relação menos discordante com os objetos que lhe trazem satisfação. A psicanálise de hoje tem a pretensão de fazer o sujeito trabalhar os seus conflitos para que possa funcionar melhor diante dos impasses que a vida cotidiana não pára de nos colocar. Nesse sentido, privilegia a palavra, a expressão viva do sujeito como meio para libertar-se da dor de existir e da angústia. A psicanálise deve ajudar o sujeito a sair da posição de ignorância com tudo aquilo que está lhe causando infelicidade ou desprazer. A psicanálise pretende despertar o sujeito que acorda para continuar dormindo, despertá-lo para celebrar a vida.
Uma psicanálise é um despertar para o vivo da existência humana. O “prejuízo” que traz o uso do computador, se pudermos falar assim, reside, justamente, na finalidade do seu uso. Essa novidade, esse mundo moderno que é a Internet, onde as imagens se pluralizam com rapidez e facilidade como verdades do sujeito para tentar enganar o real, faz a palavra serva da imagem. Porém, ao sacrificar as palavras às expensas da imagem, o sujeito torna-se, muitas vezes, um devoto da imagem, dos jogos, da distração, das soluções prontas, das cópias, em detrimento do vivo da expressão falada e escrita, da leitura, do teatro, do cinema, da interlocução com o semelhante e de tudo aquilo que exige esforço para poder apreender e se sentir realizado.
Numa palavra - o prejuízo é quando o sujeito se isola, confina-se e emudece, dedicando grande parte do seu tempo à Internet, quando “personaliza” o computador, faz do computador o seu melhor amigo, a sua melhor companhia. Assistimos, nesse século, a uma mudança de valor do homem, uma troca de companhia: do amigo cão para o amigo-computador.
Assim procedendo, o sujeito equivoca-se, porque confunde o “valor de uso” com o “valor de gozo”. Fazendo da Internet seu “partenaire”, fazendo dela a sua melhor parceira, retira satisfação da máquina em detrimento da satisfação com a mulher, os filhos e os amigos. E, acaba, inexoravelmente, sentindo-se cada vez mais solitário e isolado daquilo que é verdadeiramente humano. Assim, tentando recobrir o real com a tela das imagens, surge para o sujeito esse sintoma da modernidade que conhecemos com o nome de “Depressão”. Procedendo dessa maneira, privilegiando o objetivo, no lugar do subjetivo, submetendo-se ao “time is money”, tentando defender-se das emoções e da responsabilidade do universo das palavras, o sujeito acaba fazendo da Internet o seu Sintoma - um Sintoma Contemporâneo, que Freud não conheceu, deixando-nos, contudo, como legado, a direção da sua cura.
Freud, em 1930, no seu famoso trabalho “O mal-estar na civilização,” denunciava a difícil relação do homem consigo mesmo e com o seu semelhante, evocando aí, o que em 1960, Jacques Lacan, psicanalista francês, chamou “os impasses do sujeito com o real”.
O real é o que põe questões para todo sujeito, é aquilo com o qual o sujeito não consegue harmonizar-se. O real tem como representantes máximos na cultura, o sexo e a morte. O real é um limite. Diante do real, há sempre uma impossibilidade a ultrapassar.
No Mal-estar na civilização, Freud convoca os psicanalistas a se ocuparem do mal-estar do homem no mundo civilizado e a se interessarem pela subjetividade contemporânea. E, em 1953, Lacan, fiel seguidor de Freud, vai nos dizer que a psicanálise tem um papel a desempenhar na direção da subjetividade moderna, papel esse que somente poderá ser garantido, ajustando a psicanálise às novas invenções da ciência.
Sabemos da grande atração que o “novo”, a novidade exerce sobre o homem. É grande o interesse do homem pelos novos objetos da ciência, pelas rápidas, interessantes e atraentes invenções da ciência, pelos objetos modernos que o discurso capitalista não pára de inventar. Na série dos novos objetos da ciência, vamos refletir sobre o uso do computador, refletir sobre a relação do sujeito com esse objeto “top de linha” que proporcionou ao homem comunicar-se separado do vivo da palavra e nos permitiu acesso a um mundo virtual via Internet. A Internet é útil, engenhosa e eficaz para o sujeito engajado na modernidade, para todo sujeito identificado com o mundo contemporâneo, contudo, essa eficácia depende do modo e da finalidade como cada um dela faz uso.
A questão do sujeito com a Internet, que interessa aos psicanalistas, refere-se ao “valor” que cada um retira do “uso” que faz da máquina. Que valor tem para o sujeito essa máquina moderna que chamamos computador? Bem, a psicanálise é uma “práxis” interessada no mal-estar do sujeito no mundo, já dissemos. Dizendo de outra maneira: a psicanálise está interessada na “causa” da insatisfação e da angústia do sujeito com o mundo dos objetos. O interesse da psicanálise é orientar o sujeito, pela via do saber inconsciente, até os impasses com o real, conduzir o sujeito a construir uma relação menos discordante com os objetos que lhe trazem satisfação. A psicanálise de hoje tem a pretensão de fazer o sujeito trabalhar os seus conflitos para que possa funcionar melhor diante dos impasses que a vida cotidiana não pára de nos colocar. Nesse sentido, privilegia a palavra, a expressão viva do sujeito como meio para libertar-se da dor de existir e da angústia. A psicanálise deve ajudar o sujeito a sair da posição de ignorância com tudo aquilo que está lhe causando infelicidade ou desprazer. A psicanálise pretende despertar o sujeito que acorda para continuar dormindo, despertá-lo para celebrar a vida.
Uma psicanálise é um despertar para o vivo da existência humana. O “prejuízo” que traz o uso do computador, se pudermos falar assim, reside, justamente, na finalidade do seu uso. Essa novidade, esse mundo moderno que é a Internet, onde as imagens se pluralizam com rapidez e facilidade como verdades do sujeito para tentar enganar o real, faz a palavra serva da imagem. Porém, ao sacrificar as palavras às expensas da imagem, o sujeito torna-se, muitas vezes, um devoto da imagem, dos jogos, da distração, das soluções prontas, das cópias, em detrimento do vivo da expressão falada e escrita, da leitura, do teatro, do cinema, da interlocução com o semelhante e de tudo aquilo que exige esforço para poder apreender e se sentir realizado.
Numa palavra - o prejuízo é quando o sujeito se isola, confina-se e emudece, dedicando grande parte do seu tempo à Internet, quando “personaliza” o computador, faz do computador o seu melhor amigo, a sua melhor companhia. Assistimos, nesse século, a uma mudança de valor do homem, uma troca de companhia: do amigo cão para o amigo-computador.
Assim procedendo, o sujeito equivoca-se, porque confunde o “valor de uso” com o “valor de gozo”. Fazendo da Internet seu “partenaire”, fazendo dela a sua melhor parceira, retira satisfação da máquina em detrimento da satisfação com a mulher, os filhos e os amigos. E, acaba, inexoravelmente, sentindo-se cada vez mais solitário e isolado daquilo que é verdadeiramente humano. Assim, tentando recobrir o real com a tela das imagens, surge para o sujeito esse sintoma da modernidade que conhecemos com o nome de “Depressão”. Procedendo dessa maneira, privilegiando o objetivo, no lugar do subjetivo, submetendo-se ao “time is money”, tentando defender-se das emoções e da responsabilidade do universo das palavras, o sujeito acaba fazendo da Internet o seu Sintoma - um Sintoma Contemporâneo, que Freud não conheceu, deixando-nos, contudo, como legado, a direção da sua cura.
Por REINALDO PAMPONET
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